quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Entrevista concedida a REVISTA MULHER 10 - ANO 2008
Cristina Rech
Perfil Profissional
Nome
Cristina Rech de Almeida
Formação Profissional
Superior de Pintura pela escola de Música E Belas Artes do Paraná – EMBAP e especialista em Metodologia do Ensino da Arte.
O que significa ser artista plástico?
Na sociedade atual é um verdadeiro desafio, primeiro porque é difícil viver da própria produção artística, segundo pela desvalorização dos artistas regionais, ainda temos que lutar muito para que reconheçam nosso trabalho. Mas é um desafio que vale muito a pena, pois como artistas podemos falar através de nossa arte sobre nossas impressões particulares da sociedade em que vivemos e eternizá-la de alguma forma.
Foi algo que você sempre quis fazer ou foi acontecendo na sua vida?
Desde menina tinha fascínio por desenhar, e minha paixão sempre foi a representação da figura humana, desde os 14 anos tinha a certeza de que estudaria Arte. Quando chegou a época do vestibular pesquisei as faculdades de arte que existiam em Curitiba e passei em todas, aí foi só escolher com qual me identificava mais.
Quais são suas principais influências?
Desde que comecei a desenvolver minha pesquisa poética em Pintura sei que sou figurativa. Minhas figuras humanas têm influências impressionistas, como Manet e Degas, expressionistas principalmente nas pinceladas rápidas e intuitivas que as constroem, também do fauvismo pela cor e do realismo de alguns artistas como Hopper.
E essa história de um dia dedicado ao artista plástico, isso pode servir para alguma coisa, pode ter alguma significação positiva?
Acredito que sim, mas o problema é que a maior parte das pessoas se quer sabe que ele existe e é comemorado no dia 8 de maio. Talvez a comemoração devesse ser pública com apresentações artísticas como recitais, apresentações de dança e exposições, seria uma maneira de levar a arte à comunidade e também de valorizá-la.
De onde é que sai a matéria-prima do artista plástico?
De suas vivências, observações, impressões, de suas crenças, suas certezas e suas dúvidas. Tudo pode ser matéria-prima para a criação, encontrados na mistura do que pensamos com o que sentimos.
Como é que você caracteriza a sua obra?
Figurativa que busca na representação da figura humana, proximidades e distaciamentos, gestos e posturas que denunciam a solidão e inquietação urbana na contemporaneidade. Uma luz estranha que assume um aspecto inquietante sugerindo uma psicologia particular nas figuras representadas instigando a observação do expectador.
Também falam que a arte atualmente é comercial demais...
Acredito que a Arte verdadeira não, essa ainda busca espaço com o grande público, mas é dificilmente valorizada. Muitas pessoas realmente produzem pinturas, desenhos e esculturas que não passam apenas de objetos decorativos, são imagens gastas repetidas, que não possuem significação artística, são objetos de fácil aceitação e que geralmente combinam bem com o sofá da sala.
Quais as semelhanças e as diferenças entre um artista e um técnico?
A técnica se refere ao virtuosismo com os materiais artísticos. Um retratista pode se igualar a um fotógrafo se não ultrapassar sua técnica. Para que a arte aconteça, é necessário que a visão particular do artista esteja expressa no trabalho. Pode ser uma paleta de cores que o artista prefere proporções ou ainda deformações que costuma usar, a maneira que pincela a tinta na tela, ou um traço que denuncie seu estilo único. A técnica é capaz de realizar o trabalho, mas para transcendê-lo é necessário fazer arte.
Você vive exclusivamente de sua arte?
Não. Sou professora de Arte também. Trabalho com o ensino médio no Colégio SESI aqui
Num mundo tão deslumbrado com a industrialização, com a eletrônica e o computador, existe ainda espaço para a arte e para o artesanato?
Realmente as pessoas estão acomodadas, preferem alugar um DVD a assistir um filme no cinema e o público que sai de casa e paga para ver uma apresentação artística é pequeno. É uma questão cultural que não pode ser deixada de lado, as pessoas estão mais frias, superficiais, em busca de emoções rápidas e prazeres fugazes. É preciso educar cidadãos mais reflexivos, sensíveis e críticos para que arte e artesanato não se transformem em “coisa do passado”.
Perfil Pessoal
Do que você mais gosta
Sensibilidade
Do que você não gosta
Leviandade
Como você se vê
Sou bastante introspectiva e quieta, mas quando faço amizade gosto de conversar sobre assuntos interessantes. Sou discreta e tímida. Outra característica é ser observadora, coisa de artista.
Personalidade que admira
Ana Mae Barbosa, pioneira na Arte-educação no Brasil.
Uma mania
Tenho mania de organização, gosto de tudo organizado.
Um filme
Janela da Alma, de Walter carvalho e João Jardim.
Viagem dos sonhos
Gostaria de fazer um roteiro por toda a Europa conhecendo os museus e acervos mais importantes como o Louvre e o Tate Gallery
Nalgum Lugar, Zeca Baleiro.
Estação preferida
Primavera
Roupa que gosta de vestir
Sou discreta e casual, gosto de um jeans e uma blusa que faça meu estilo.
Fazer tudo pela minha felicidade, mas só se não prejudicar ninguém. Consciência tranqüila para mim é o mais importante. Também acredito muito na frase de uma música que fala “saber ouvir é mais saber”. Paciência, curiosidade e saber escutar são os caminhos que costumo seguir para o conhecimento.
Como você vê a imagem da mulher na sociedade brasileira?
Acredito que a mulher brasileira tem participado ativamente na sociedade, mesmo sendo ainda minoria no mercado de trabalho. A mulher tem se preparado cada vez mais, qualificando-se. Também tem lutado pelos seus direitos através de campanhas pela saúde, direitos iguais e contra a violência doméstica. A mulher brasileira tem um perfil independente e batalhador, todos nós, homens e mulheres temos muito a ganhar com isso.
Você acredita que o mundo seria diferente se tivesse se desenvolvido sob ótica feminina?
Acredito que sim. Nossa história é marcada por guerras e busca de poder dominado pelo pensamento masculino. O olhar feminino é sensível e nesse sentido é um olhar particularmente inteligente porque sabe conciliar razão e emoção. A intuição feminina também é um instrumento poderoso com o qual podemos dosar misticismo e realidade.
A mulher estuda mais que o homem e mesmo assim ganha menos. O mercado de trabalho é machista ou é injusto?
Com certeza, mas acredito que a injustiça não esta em reconhecer a capacidade feminina para o trabalho, essa já esta mais do que comprovada, a injustiça esta no fato de ainda existir preconceito quanto à capacidade da mulher se dedicar ao trabalho com tantos outros afazeres como a família e a casa.
Dados do IBGE mostram que as mulheres representam mais de 50% da sociedade brasileira e estão sendo inseridas nas instâncias de poder, nas universidades e nas escolas. Por que a mulher ainda não alcançou uma condição de igualdade em relação ao homem como ter salários compatíveis ou ainda ter de dividir a jornada de trabalho com a jornada de dona de casa?
Acho que ainda não alcançamos porque não basta uma condição de igualdade no trabalho, mas na relação familiar também. As mulheres ainda são donas da maior parte das responsabilidades da casa e dos filhos. O preconceito quanto o trabalho feminino ainda existe porque ainda acredita-se que o homem seja mais competente no sentido de que ele pode dedicar-se exclusivamente ao trabalho profissional enquanto a mulher cuida do resto.